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O discurso da autonomia das escolas, da importância inestimável que o empenho de muitos professores se tem traduzido na recuperação de alunos para o sistema e da batalha contra o abandono, é um discurso que vende bem nos jornais e televisões e que tanto a ministra como os seus secretários têm sempre na ponta da língua.

O problema é quando esse discurso tropeça na ignorância e no “papismo” dos burocratas que, nos organismos centralizados e centralistas do ministério, estão pouco preocupados com a vida dos alunos, com o empenho e dedicação dos professores e sobretudo com a autonomia pedagógica das escolas. Para o burocrata que precisa de um lugar na estrutura central do ministério, o que importa é “mostrar serviço” e garantir a continuação da requisição.

É o caso da apreciação de dois projectos de Percursos Curriculares Alternativos (PCA) apresentados por um agrupamento que serve uma população carenciada, constituída maioritariamente por imigrantes com graves problemas no domínio da língua portuguesa, que se traduzem em grave desfavorecimento social e económico.

A pessoa a quem coube ler e dar um parecer sobre os projectos, não tendo tido capacidade para entender que os alunos seleccionados são crianças que, antes mesmo de chegarem ao referido agrupamento, têm um percurso de insucesso repetido com risco de abandono escolar, agarrou-se à grelha da matriz curricular do 6/2001 para não aprovar a possibilidade de alguns conteúdos disciplinares, que têm uma evidente conexão interdisciplinar, poderem leccionados por dois professores em simultâneo.

Os faxes enviados tiveram como efeito o abandono do projecto referente aos alunos do 1º ciclo (porque o projecto só é exequível com uma leccionação coadjuvada). Quanto ao 2º ciclo, porque a equipa que abraçou o projecto é constituída por professores com muita experiência e saber, a reacção oscilou entre a indignação e a gargalhada. Como essa equipa sabe que a regulação vertical, centralizada e burocrática apenas serve para justificar a existência da estrutura hierárquica, o que ficou resolvido é que se mudam os nomes aos bois e os alunos terão direito a um percurso curricular que garanta as aprendizagens e não que sirva apenas para as estatísticas ministeriais.