Há já muitos anos, a propósito de vitórias e derrotas eleitorais, Pacheco Pereira afirmou algo de que nunca mais me esqueci, e que era mais ou menos o seguinte:  “As vitórias eleitorais não se medem nos votos contados nas urnas, mas nos comentários da noite eleitoral e nas parangonas do dia seguinte.”

Esta ideia é perfeitamente aplicável ao que se passa com o anúncio do resultado das negociações entre a Plataforma Sindical e o ME, o qual se traduziu na aceitação pelo governo de que este ano se vai aplicar a todas as escolas do país o mesmo modelo de avaliação que se aplicava até ao ano passado (já com o actual ECD em vigor).

Quem ouvir o discurso da ministra ou do 1º ministro pode até pensar que os sindicatos (e por arrastamento os professores) aceitaram as teses governamentais. No entanto, para quem está por dentro de todo o processo, ou para quem esteja minimamente atento e não seja esquecido, está muito claro que o governo abdicou de todas as bandeiras com que entrou para a reunião de ontem.

Vejamos o que o ME dizia aos jornalistas, ontem à noite: «fonte do Ministério da Educação garantiu aos jornalistas que embora tenha havido uma grande aproximação de posições entre as partes, continuava a haver pontos de discórdias. Nas negociações de ontem, a principal discordância continuava a dizer respeito à uniformização dos itens de avaliação em diferentes escolas, defendida pelos sindicatos. “Essa é realmente a grande questão que nos divide, pois representa um ponto de honra para o Ministério que as escolas que já estão a avançar com a avaliação, e de forma bem feita, não voltem atrás”, afirmou a mesma fonte, que defende que o Ministério “não pode agora pedir às escolas que estão a fazer bem para começarem a fazer as coisas mal”.»

Apesar de no final da reunião o governo, através do ME, ter assinado um compromisso em que aceita um modelo de avaliação, para todas as escolas do país, que é exactamente igual ao que ainda no ano passado foi aplicado aos professores contratados (já com o actual ECD em vigor), hoje o 1º ministro, seguindo a formulação enunciada por Pacheco Pereira a propósito dos resultados elitorais, teve o desplante de afirmar o seguinte: «Este acordo deixa-me muito satisfeito e quero felicitar publicamente a senhora ministra da Educação porque valeu a pena perseverar e hoje temos um consenso muito alargado na sociedade portuguesa quanto à importância da avaliação dos professores.»

Tal como eu próprio escrevi aqui: (É na conjugação destes factores que temos que perceber que ordens Pinto de Sousa terá dado a MLR para alcançar um acordo: «Assine um acordo, mas garanta que vai haver “uma avaliação”».) para o 1º ministro não interessa nada que haja uma avaliação séria e credível. Apenas lhe interessa ter uma bandeira para as eleições do próximo ano, mesmo que toda a gente saiba que se baseia em mais uma mentira descarada: «Questionado se o Governo abdicou ou não dos termos que defendia para a avaliação dos professores, José Sócrates evitou responder, considerando que o principal “é que neste acordo está consagrada a avaliação de professores” e que esta avançará com “um melhor clima”»

Simultaneamente há professores que em vez de se congratularem com a vitória nesta batalha, retomam o discurso da divisão e do derrotismo, criticando a plataforma sindical por ter conseguido travar o ímpeto de muitos PCE’s adesivos, que se preparavam para avaliar os colegas seguindo à risca, ou ultrapassando mesmo, as instruções do ME.

De facto ainda temos um longo caminho a percorrer até conseguirmos passar para lá das leituras simplistas que nos são servidas por políticos oportunistas, que controlam uma comunicação social atenta e reverenciadora do poder instalado.