No comício de desagravo a MLR e de combate à manifestção de 100 mil professores, realizada uma semana antes em Lisboa, Jorge Coelho afirmou:

Do êxito da reforma da Educação depende o futuro de Portugal. Portugal precisa de uma educação e escolas melhores e de uma reforma a sério como a que está a ser feita.

Este tipo de discurso, se fosse feito para brasileiros, seria classificado de discurso para boi que dorme. Entre nós entusiasma gente pouco informada e que tem da política partidária uma noção muito próxima da que têm os membros das claques desportivas quando está em jogo um Benfica – Porto.

Na verdade a primeira parte da afirmação de Jorge Coelho, que no essencial resume o discurso de Pinto de Sousa, é uma evidência “lapalissiana” com que toda a gente concorda.

Portugal precisa efectivamente de uma Educação melhor, que garanta que todas as crianças e jovens adquiram competências e conhecimentos que lhes permitam ser cidadãos de pleno direito, numa cidadania à escala global. Os portugueses não estão condenados a ser os serventes e os operários, pouco ou muito qualificados, ao serviço dos restantes europeus. Só que isso impõe que a certificação que é dada pela escola corresponda efectivamente a uma aprendizagem de competências e conhecimentos, a qual não se compadece com passagens administrativas, inflação de classificações ou atribuição de diplomas com pouco ou nenhum critério.

Para atinjir tal desiderato, é forçoso que Portugal tenha melhores escolas e aí voltamos a estar de acordo. Onde o acordo desaparece é no conceito do que é uma escola boa.

Para Jorge Coelho e para os seus apaniguados, uma vez que acham que esta reforma é A Reforma imprescindível, uma escola boa é uma escola com um director que obedeça às ordens do director regional de educação e através deste às ordens da ministra (o tal líder forte que lhes falta). É também uma escola em que as taxas de transição devem caminhar para os 100%, independentemente de as aprendizagens dos alunos não corresponderem a esse sucesso. Cada ano a mais que um aluno esteja no sistema representa um acréscimo de custos para o orçamento do ministério e, por consequência, para o OGE.

Quanto à qualidade das instalações e equipamentos escolares, do espaço e do mobiliário das salas de aula, ou do número de salas, oficinas e laboratórios que cada escola possui, já se trata de assuntos de menor relevância. Para Jorge Coelho e para o seu amigo Pinto de Sousa competirá a cada escola encontrar os meios financeiros para se equipar, num quadro de mercantilização do serviço educativo e de dependência face aos mecenas que possam existir na comunidade.

É verdade que muita coisa tem que mudar na Educação em Portugal. Só que, ao contrário do que afirmou ontem Jorge Coelho no comício do desagravo à ministra da Educação, ou que Pinto de Sousa vem afirmando desde à três anos, a mudança não passa por esta reforma. Ela começará a realizar-se através do cumprimento da LBSE e passará pelo aperfeiçoamento da legislação que estava em vigor quando esta equipa da educação entrou como um bulldozer pelas escolas adentro.