Recebi um email de um amigo em que este, respondendo a uma mensagem sobre o texto inqualificável que Emídio Rangel escreveu no CM de dia 8, acabava por reproduzir muitos dos “slogans” com que a máquina de propaganda governamental vai abastecendo os mídia, nesta guerra aberta de que os professores são vítimas:
«O PCP tem-se dedicado, de há muito, a destruir alegremente o sistema educativo deste país e os professosres, aqueles seres, que no nosso tempo, eram tidos como uma espécie de missionários, dedicados ao nobre mister do ensino, ou se foram integrando no esquema para não serem cilindrados pelo sistema ou, pura e simplesmente, se foram embora. Por facilitismo ou comodidade, a “maioria silenciosa” foi-se calando . . .

Ao Ministerio, há muito tempo, que nada mais interessa que enviar gráficos para Bruxelas, para justificar os balurdios que se vão por aqui espatifando, em proveito de alguns, quase sempre os mesmos.

A qualidade do ensino há muito que se vem degradando e os professores que agora foram para a rua, de forma quase corporativa, por comodismo ou facilitismo ou sei lá porquê, estiveram a ver passar os comboios, ou mais concretamente, a assitir ao nivelar por baixo a qualidade do ensino.

A democracia alimenta-se de gente, autonoma e capaz de raciocinar e historicamente, não é gente dessa que interessa ao PC seja lá ele de onde for!

E assim, todos assistimos aos desvarios dos sindicatos que, desde a abrilada, campeiam no ME ou, dos muitos nomes que este ministério (ou será misterio), tem usado com as mais desvairadas “reformas”!

E a que tem levado essas reformas?

Melhorou a qualidade do ensino?

Prepara os alunos para a vida em sociedade ou laboral?

Apanho por tabela esta vaga, que chega ao mercado de trabalho sem preparação e muito menos, hábitos de vida em sociedade organizada.

Acabaram com os exames porque era elitismo . . . e a que leva isto? Ao facilitismo puro e simples.

Para seres dótor ou inginheiro, basta andares por ali . . . e se faltares muito, o prof é que tem que explicar porque é que não vais às aulas.

Uma vez que este meu amigo, apesar de ser uma pessoa inteligente, sensata e ponderada, também embarca na propaganda, resolvi elucidá-lo sobre a injustiça que está a cometer:
A,
Conhecendo-te como uma pessoa sensata e ponderada, tenho que te dizer o quanto lamento profundamente que venhas juntar-te a um treinador de bancada como o Rangel, para fazer coro contra os professores e defenderes os autores dos males que apontas ao ensino.
Não te vou pedir para usares um pouco do teu tempo a ler o muito que muitos professores e investigadores têm escrito, sobre os disparates cometidos pelos sucessivos ministros (julgo que 26, desde 1974).
Peço-te é para que, quando resolveres tomar partido, comeces por perguntar a quem sabe e não te ficares pelo «ouvi dizer que». Tenho-te em melhor consideração e não sou capaz de te imaginar leviano ao ponto de não perceberes que o teu texto é, ele mesmo, uma contradição pegada.
Tudo em nome de um medo e um combate estupidificante ao PCP.
Será que és capaz de mencionar o nome do último ministro, secretário de estado ou director geral do ministério da educação filiado no PCP? Ou estás a chamar lacaios do PCP às dezenas de membros do PS, do PSD e do CDS que pululam e se vão substituindo uns aos outros nos corredores da 5 de Outubro e da 24 de Julho?
Por outro lado, se reconheces que ao ministério o que interessa são as estatísticas, como é que culpas os professores por obedecerem à hierarquia? A menos que aches que os professores desobedecem e nesse caso não trabalham para a estatística, mas sim para que os padrões de qualidade se mantenham altos. Será que não percebes a contradição dos termos em que colocas as coisas?
Sobre exames, certificação e avaliação promotora de aprendizagens não te falo agora aqui, pois a mensagem ficaria demasiado longa. Direi apenas que não são os exames que tornam o ensino elitista, porque exames há-os para todos os gostos. Os exames de condução permitem a obtenção da carta até a analfabetos funcionais.
O que determina o elitismo do ensino é a possibilidade ou não de acesso ao ensino para alguns ou para todos. Um ensino é elitista quando exclui do acesso ao saber muitos, para preservar o valor do diploma de alguns.
É com a contradição entre o valor do diploma e a necessidade de educar e instruir todos que a sociedade se tem de confrontar. Se quiser resolver essa contradição terá que acolher o saber dos professores, ou então continuaremos no disparate dos últimos anos, que culminou na propaganda barata de Pinto de Sousa e que gente sensata como tu vai engolindo acriticamente.
Um abraço,
Francisco Santos