O sr. Emídio Rangel, como de resto um grande número de “jornalistas séniores” deste país, é uma criatura com enorme argúcia para criticar quem se opõe aos poderes instalados e para manter uma protecção encapotada a esses mesmos poderes.

De um modo geral, quando lemos ou ouvimos a maior parte dos comentadores encartados do país, verdadeira corporação em que se misturam alguns jornalistas, alguns políticos e um ou outro amigo proveniente da academia, ficamos a saber que o país está de rastos, tudo funciona mal, mas a culpa é sempre de terceiros. Umas vezes incertos, outras perfeitamente identificados, mas o que interessa relevar é que eles, os opinantes, são sempre seres superiores e nada têm a ver com o que criticam.

Tomam os portugueses por tolos e pensam que não nos lembramos que estes senhores opinadores andam, atentos e venerandos, a emitir as mesmas opiniões e a partilhar as migalhas do poder há décadas.

Tudo isto vem a propósito da escrita de pasquim que o sr. Emídio Rangel assinou no Correio da Manhã de ontem. Trata-se de uma peça de antologia sobre o ódio em geral e sobre o ódio e o fel destilado sobre uma classe profissional a que o sr. Emídio Rangel episodicamente pertenceu, muito embora eu não saiba quem lhe reconheceu os méritos pedagógico-didácticos para o fazer.

Se os professores fossem gente como a espécie de caricatura que o sr. Emídio Rangel desenha na sua croniqueta, por certo o sujeito passaria a evitar as imediações de qualquer estabelecimento de ensino, ou passaria a ter que andar de guarda-costas, não fosse algum “hooligan licenciado” passar-lhe a mão pelo lombo. Como somos gente muito superior aos pobres coitados, nostálgicos do Estado Novo e dos privilégios coloniais que esse regime lhes permitiu, demos-lhe a resposta clara e inequívoca com a maior manifestação de que há memória desde o verão quente de 75.

A última grande manifestação que me lembro de ter sido convocada para o Terreiro do Paço foi com Pinheiro da Azevedo a serenar a multidão: «É só fumaça, é só fumaça!» A frase neste caso serve às mil maravilhas para expressar o pensamento do sr. Emídio Rangel – aquela cabeça não consegue produzir mais do que fumaça e mesmo assim o cérebro fica logo em sobre-aquecimento.