Integrado no plano que os estrategas do PS estabeleceram para conter os danos provocados pela revolta dos professores, o programa da “yes-minister” FCF de ontem à noite pode ser lido de formas diversas.

Por um lado ficou claro que a televisão pública (e a apresentadora do Prós&Contras) “sentiu” necessidade de controlar alguns dos danos que o programa da passada semana causou na imagem de MLR. É que apesar de uns quantos “comentadeiros” terem procurado evidenciar uma alegada falta de respeito pela ministra, na verdade toda a gente percebeu que o discurso de optimismo sem conteúdo e de calúnia sobre a classe docente já não convence senão os acólitos. Foi assim que FCF escolheu a dedo os seus convidados de ontem, não permitindo mais o confronto e procurando uma via de apaziguamento e mediação.

Para isso convidou “especialistas em avaliação” que tinham pelo menos uma de duas características: alguma afinidade com o PS de Sócrates, ou um conhecimento e/ou amizade com a ministra. Ao que juntou um discurso minimalista que se pode sintetizar em duas frases: uma interrogativa – «Apoia, sim ou não a necessidade de uma avaliação dos professores?» e outra bastante assertiva – «A avaliação só terá que estar concluída em 2009.» No fundo FCF mais não fez do que repetir o discurso que a ministra produziria se tivesse estado no programa, pois até aproveitou a saída para intervalo para anunciar o recurso das sentenças sobre horas extraordinárias e a “retratação” do professor que na semana passada tinha denunciado pressões para levantar notas aos alunos.

Olhado por este prisma, o programa cumpriu os seus objectivos que eram amachucar um pouco mais a imagem e a credibilidade dos professores, ao mesmo tempo que se deixava no ar a ideia de que é possível promover uma “mediação” que preserve a imagem política do governo, sem que no essencial se mudem as políticas.

Esse é, no entanto, outro dos prismas porque se pode também olhar a questão. Ao longo de todo o programa FCF procurou evitar que se discutissem a qualidade e a bondade das políticas educativas. O único interveniente que se pode espraiar em considerações sobre a exequibilidade e a simplicidade do DR 2/2008 foi o “especialista em recursos humanos”, muito embora o senhor se tenha esquecido de explicar  que a organização-escola não é exactamente uma organização empresarial e que ensinar crianças e jovens não se pode medir da mesma forma que se mede o enchimento de chouriços na industria alimentar.

Apesar de tudo e atendendo à conjuntura, que é claramente de uma barreira de fogo cerrado do PS sobre os professores, o programa não correu tão bem a FCF como ela podia imaginar e os estrategas do PS tinham planeado. É que embora os convidados tenham cumprido a missão esperada, que era a de deixar a ideia de que com uma mediação sensata e eficaz é possível pôr a Educação na ordem e manter as políticas do governo, houve alguns deles que por vezes ultrapassaram o que se lhes exigia e deixaram passar ideias contrárias ao discurso oficial.

Foi o caso de João Lobo Antunes quando relembrou a frase de Pedro Nunes na sua sala de aula, para ilustrar a ideia de que nem tudo é mensurável, embora tudo deva ser avaliado. Foi o caso de Manuel Vilaverde Cabral quando reflectiu sobre a falência do modelo educativo do século XIX e a sua não aplicabilidade ao século XXI. Foi sobretudo o caso do convidado que na primeira fila da assistência reconheceu a qualidade da educação que a escola pública portuguesa proporcionou aos seus filhos, por contraponto com algumas das escolas de referência no estrangeiro, em que os mesmos também estudaram.

Resumindo, os próximos tempos vão ser difíceis! A luta vai ser longa, desgastante e muito desigual! De um lado vamos ter o poder, os poderosos e a sua corte, a denegrir por um lado e a aliciar por outro, no sentido de desmobilizar os menos convictos. Do outro ficamos nós professores, que temos como únicas armas a razão e a unidade. Unidade em torno de um ideal de dignidade profissional e de defesa de uma escola de qualidade. Unidade em forma de solidariedade com todos os colegas, independentemente da sua pertença ou não às várias organizações sindicais e profissionais. Unidade que promova e defenda uma ideia de corporação como ainda ontem João Lobo Antunes a mencionou no início do programa.

Porque face às políticas públicas de educação que estão a ser impostas ao país, a emergência de uma verdadeira corporação dos professores que seja capaz de se auto-regular e de cumprir um contrato social para a educação de todas as crianças e jovens é uma necessidade nacional.