A OCDE é uma das organizações de referência na regulação transnacional das políticas públicas de educação.
Embora esta organização, como de resto quase todas as outras organizações internacionais, mais não faça do que «recomendações» sobre as políticas públicas, os governos (e em particular os governos dos pequenos países periféricos como Portugal) usam alguma da informação disponibilizada para justificar as suas decisões políticas, alijando responsabilidades próprias e culpabilizando as instâncias internacionais e a globalização por todos os males da governação.

O governo de Sócrates, beneficiando de uma aprendizagem feita ao longo de anos de observação das práticas dos governos anteriores, é especialista nesta gestão da informação, em proveito das suas políticas, e na forma como consegue denegrir a imagem dos seus «alvos preferenciais». O caso dos professores e da imagem negativa que a equipa liderada pela ministra MLR e pelos seus secretários de estado deles construiu, é apenas um pequeno exemplo que a leitura da edição de 2006 do documento “Education at a Glance” permite facilmente desmontar.

Eis alguns “dados”:
Portugal aparece em 31º e último lugar no que diz respeito ao número de anos passados no sistema de ensino pela população adulta com mais de 25 anos (8,5 anos, contra uma média de 12 anos nos países referenciados no estudo), o que aponta para uma clara necessidade de investir na educação e formação de adultos. Isso poderia e deveria traduzir-se em maior empregabilidade docente;

Apesar de ser pouco significativa, a tendência apontada pelo estudo é de que haja um pequeno aumento da população escolar entre os 5 e os 14 anos. Aliás, neste indicador, Portugal situa-se no 10º e último lugar entre os países cuja população escolar tenderá a aumentar nos próximos 10 anos, ao contrário do que acontece nos restantes países. Também este dado é contraditório com a afirmação da ministra, que ainda esta semana justificava as dificuldades de emprego docente com uma alegada diminuição da população escolar;

Portugal situa-se na 23ª posição quanto aos custos anuais por aluno, com cerca de 5500 USD contra uma média de 7500 USD;

Quanto ao número de horas que se prevê que um estudante passe em actividades lectivas entre os 7 e os 14 anos, Portugal situa-se na 10ª posição com cerca de 7300 horas, contra cerca de 8000 horas das crianças holandesas e cerca de 5500 das crianças finlandesas. Recorde-se que ainda há bem pouco tempo a Finlândia constituía o exemplo perfeito, que tanto o ex-presidente Jorge Sampaio, como o actual 1º ministro Sócrates apontavam como o “farol” para o nosso sistema educativo;

No que respeita ao tamanho das turmas, este varia entre os mais de 30 alunos no Japão, na Coreia e no Brasil e os menos de 20 na Dinamarca, Luxemburgo e Suíça. Aqui Portugal acompanha a média com cerca de 24 alunos por turma;

Um dos aspectos mais criticados pelo governo, dizia respeito aos salários dos professores e à enorme despesa com o pessoal docente. Pois bem, nesse particular os professores portugueses situam-se abaixo da média dos países estudados, auferindo cerca de 30000 USD anuais, contra mais de 80000 USD anuais dos professores luxemburgueses, ou mais de 48000 USD anuais dos professores suíços, coreanos e alemães. No final da escala aparecem os professores húngaros, chilenos e polacos com menos de 15000 USD anuais;

Já quanto ao número de horas que os professores passam na escola, os portugueses estão próximo da média com pouco mais de 650 horas por ano, contra um máximo de 1080 horas nos EEUU e um mínimo de 534 horas no Japão.

Como se vê, dados estatísticos estão aí para todos os gostos. A questão é que se torna muito fácil usá-los com intuitos propagandísticos e a benefício da demagogia político-partidária, quando se sabe que a maior parte das pessoas não acede a essa informação, ou porque não sabe como o fazer, ou porque não sabe sequer que ela está disponível.