Vergonha.
É esse o sentimento que me assalta, quando leio e oiço as notícias sobre mais uma campanha negra um escândalo em que o nome de Pinto de Sousa volta a ser pronunciado.
Vergonha e impotência, face ao monstruoso jogo de sombras chinesas com que as mais altas instâncias da justiça portuguesa envolvem a (des)informação sobre o que pode ter-se passado.
Ao ler a notícia do Expresso Online, e confrontando-a com as declarações do Sr. Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e do Sr. Procurador Geral da República, a metáfora que me ocorre é a de “Matrix”.
Para quem não viu o filme original, e as suas sequelas, “Matrix” é um programa informático que cria e gera um mundo virtual, destinado a controlar os humanos, fazendo-os acreditar que vivem num mundo “normal”, quando as suas existências apenas se destinam a garantir a energia necessária ao funcionamento das máquinas que os governam.
Qual “Matrix”, os portugueses estão mergulhados num quotidiano delirante(*) em que não se sabe se os criminosos são os que combinam, ao telefone, esquemas engenhosos para defraudar o erário público, ou se são as autoridades que interceptam essas conversas.
Revolta.
É o outro sentimento que fica. Sobretudo quando se percebe que existem fugas de informação selectivas, destinadas a introduzir entropia no trabalho dos investigadores.
Porque, a ser verdade o que transparece na comunicação social, os operacionais no terreno souberam, durante vários meses, desenvolver uma investigação eficiente, sem que houvesse a mais pequena fuga de informação (só assim poderiam ter visto, ouvido e registado tudo o que se sabe, para além do que não se sabe).
E é quando a informação chega aos mais altos níveis da hierarquia do ministério público (onde os cargos são exercidos por nomeação) que a comunicação social começa a ser inundada com fugas que, mais do que comprometer esta ou aquela individualidade, tem um efeito de descredibilização da investigação judicial e do sistema de justiça como um todo.
Dito isto, resta tirar a conclusão: a quem interessa descredibilizar a justiça e os seus agentes, em especial os investigadores?
A resposta parece-me óbvia – a todos os que sabem que têm o dever de responder perante essa mesma justiça.
(*) Quotidiano Delirante é o título de um extraordinário trabalho do autor de BD Miguelanxo Prado, em que o absurdo se confunde com episódios que podem ocorrer no quotidiano de um qualquer cidadão. Recomendo vivamente, como forma de aliviar o absurdo dos nossos próprios quotidianos.
Vergonha e impotência, mas sobretudo grande indignação e revolta.
Tem toda a razão, o Francisco. Querem-nos atirar poeira para os olhos com as fugas de informação selectivas (escolhem o quê, como e quando).
Há quatro meses que as certidões estavam na Procuradoria e a notícia, por coincidência, só é dada passado o ciclo eleitoral.
Parabéns por este espaço…
abraços
Obrigado Eduardo
Comunicação social e agenda política do governo nunca estiveram tão próximos e esse problema também preocupa os profissionais “inquietos” da comunicação… Relacionando os teus três últimos escritos, (que ajudam mesmo a (re)arrumar as nossas cabeças “formatadas” por este “teatro de sombras”) apetece-me lembrar o António Nóvoa e a importância que coloca na “comunicação directa” entre os professores e a opinião pública (coisa que tão pouco tem acontecido, nos tradicionais locais de maior audiência). Será que saberemos ganhar esta batalha? Será que este pode ser o “tempo dos professores”? Isto é, que saberemos transformar a aparente vulnerabilidade actual, em oportunidade de visibilidade da profissão? Sobretudo numa época em que, no seio da agenda da comunicação social/governo, a luta dos professores tem que “competir” com temas como o da corrupção? É por isso que o teu blogue é óptimo e tem que chegar a mais gente… Pelo meu lado, OBRIGADA!
Isabel,
Obrigado pela generosidade do teu comentário.
Vou aproveitando as lições das nossas sextas feiras, para aprender a olhar o que nos é servido a partir de outros pontos de vista.