
Como dizia ontem o 1º ministro Pinto de Sousa, à saída do debate sobre o estado da nação, a política às vezes é muito injusta.
Ontem calhou a vez ao ministro Pinho. Teve que provar o sabor amargo da injustiça, sendo liminarmente despedido apenas por ter exteriorizado (de forma explícitamente gestual) a forma como o seu chefe, protector e mentor tem maltratado (toureado é capaz de ser um termo mais apropriado) o parlamento e os deputados, perante quem tem que prestar contas.
Quem não se recorda da forma arrogante, mal-criada mesmo, como Pinto de Sousa sempre se dirigiu aos deputados da oposição (tanto à sua esquerda como à sua direita), ao longo de toda a legislatura? Quem esqueceu já a forma deselegante, agressiva e prepotente com que Pinto de Sousa sempre se dirigiu a quem se atrevia a fazer-lhe frente, ou simplesmente a colocar questões incómodas?
Manuel Pinho, numa altura em que o controlo e a compostura deste governo anda pelas ruas da amargura, achou que podia destratar o líder de uma bancada parlamentar que o estava a incomodar. Deu de barato que estava na Assembleia da República (casa que durante 4 anos se habituou a ver desrespeitada pelo seu chefe) e não se lembrou que as câmaras de televisão tudo vêem e tudo gravam.
Resta saber se pessoalmente teve azar, ou se apenas antecipou mais uma reforma dourada, numa qualquer empresa disponível para reciclar ministros caídos em desgraça. Para já tem direito a ir de férias mais cedo do que os seus colegas de governo.
Ainda não tinha arrefecido o cadáver político do inenarrável ministro da Economia e já os comentadores oficiosos do costume se esforçavam por desvalorizar o gesto simbólico do “marrador” e procuram agora branquear o seu acto, não avaliando o seu significado, nem os factos que lhe deram origem, mas “compreendendo” uma resposta “talvez exagerada” a “provocações”.
Os empresários e o seu porta-voz Van Zeller já fizeram o elogio da pobre vítima. E António Costa mostrou ontem na SIC Notícias a sua profunda tristeza pela demissão de um ministro tão “competente”, tão “imaginativo” e tão “criativo”. Lendo os jornais de hoje e ouvindo as rádios e noticiários televisivos, fica-se sem saber exactamente qual foi o comentário que motivou o mimetismo de um cornúpeto por parte da baixinha individualidade do governo PS.
Leia-se em:
http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=34264&Itemid=581
Prosseguem os elogios ao ministro que vai ficar conhecido pela perfeição com que fazia o gesto de marrar. Elogios que chegam até de “sindicalistas”, como do inchado “Lech Walesa” da Auto-Europa que se sentou no lugar de honra (?!) no jantar de homenagem à figurinha que ocupou a pasta da Economia:
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1296890
O insólito da caricata situação causou tal incómodo que o chefe da agremiação bloquista se viu forçado a demarcar-se da nova vedeta do sindicalismo “caviar”, o que foi pretexto para mais tempo de antena à espécie sindical que os patrões e o governo tanto acarinham:
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1301797
A ler tudo, com atenção. Mas há uma pérola a destacar, porque revela a “consistência” ideológica e política do dito cujo:
“O BE é o partido com que mais me identifico em termos ideológicos”
(António Chora, membro da Comissão Política do BE)