O espaço de formação específico é a escola, essa escola que é um espaço de viver e não apenas de aprender, e por isso cuja organização deve fazer-se em função dos educandos. Não por eles, porque a instituição permanece, embora mudando, ao longo de sucessivas gerações que a frequentam, e sobretudo porque, não tendo atingido as metas de formação, carecem de competência para escolher os caminhos para as atingir; mas nela devem ter a possibilidade de se ir preparando para organizarem por si próprios. É essencial principalmente que a escola não seja, para eles, um lugar de passagem, onde estão algumas horas por dia sempre ocupados em tarefas que lhes marcam; mas sim um lugar de que se apropriam durante os anos que a frequentam, onde permanecem diariamente para actividades múltiplas e não só para a assimilação de conhecimentos – incluindo as actividades lúdicas. Actualmente, a falta de edifícios tende a transformar as escolas como que em lavagens automáticas de carros, a um turno sucede outro turno, de modo que não se vive na escola, não se vive a escola, está-se em trânsito.
Ora, na emergência e desenvolvimento da personalidade, como na tessitura das relações inter-pessoais, os sucessivos e simultâneos papéis sociais que o eu vá desempenhando, sendo por eles esculpido enquanto lhes imprime a coloração individualizadora, inscrevem-se em configurações da extensão de que algumas marcam o sujeito duradouramente – o lar, a escola, o local de trabalho, o templo ou o clube.
A escola, assim, individualiza do mesmo passo que sociabiliza, na exterioridade do seu espaço apropriado tem como outra face a interiorização. E isso, se nela se vive, e portanto se é activo – Sérgio bem sublinhava que se educa na acção, pela acção. É-se levado a compreender o universo, o ambiente, e a compreendermo-nos, a explicá-lo e a explicar o que somos; como se aprende o ofício, ou melhor, nos formamos para a polivalência do saber-fazer; vamo-nos iniciando, construindo na cidadania, o que implica a solidariedade social mas igualmente que na escola o educando seja tratado por medida, como pessoa, e não massificado. Trata-se de trabalhar (e de estudo como forma de trabalho e textura mental a elaborar a compreensão-explicação), como se trata de praticar desporto (formativo da personalidade e da sociabilidade), de usufruir o deleite estético. Mas a escola tem de ser sobretudo um espaço de formação ética – não de discursos moralizadores, mas de prática reflexiva, com opções criticamente assumidas. Sérgio acentuava repetidamente a vacuidade da pregação moral, mas para ele, centrando tudo na emergência da personalidade, no centro de tudo colocava os múltiplos feixes de acções socialmente situados em que o sujeito assume por si os valores e auto-dita as normas.
Vitorino Magalhães Godinho – prefácio da edição de 1984 de EDUCAÇÃO CÍVICA de António Sérgio
E porque não o título: “A escola como espaço de aprendizagem e não apenas como espaço de vida”.
Aprender é preciso, viver não é preciso…
É preferível colocar a aprendizagem acima de tudo, dado que tem sido ao longo destes anos cada vez mais descurada.
Além disso a escola será sempre um espaço de vida, quer se aprenda ou não.
“Aprender é preciso, viver não é preciso…” !?
AMCD,
será que se deu conta da enormidade que escreveu?
Então “viver não é preciso”?
Se assim for, pode explicar-nos para que é preciso aprender? Será para morrer? Ou para não viver?
Confesso que fiquei confuso.
FJ Santos, no tempo das navegações (das Descobertas) havia uma frase, hoje cantada por poetas e cantores, que revelava um estado de espírito, uma atitude que nos fez ir longe, a frase era: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.
Claro que é preciso viver, e ninguém navega se não estiver vivo. O que eu quero dizer é que na escala de valores, por vezes é preciso colocar outros à frente da Vida, para que lutemos por eles com mais ardor: a Liberdade por exemplo. É claro que prefiro, “Ensinar é preciso, viver não é preciso…”.
Peço-lhe desculpa se o confundi, de qualquer forma, julgo que a ênfase deve ser mais colocada na aprendizagem do que na “escola enquanto espaço de vida” porque o facto de a escola ser um espaço de vida é um dado adquirido a priori. Julgo que não nos devemos afastar do papel para o qual a escola foi criada: um espaço de relações, onde se ensina e se aprende. Tudo o resto são manobras de diversão.
Cumprimentos.
Por exemplo, uma canção muito conhecida de Caetano Veloso, “Os Argonautas”, no link abaixo.
http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/caetanoveloso-argonautas.html
Ou Fernando Pessoa, aqui e em muitos outros sítios.
http://www.jornaldepoesia.jor.br/fpesso05.html
Abaixo, um dos múltiplos sítios em que se procura explicar a frase.
http://terraimunda.blogspot.com/2007/05/navegar-preciso-viver-no-preciso.html
Cumprimentos
AMCD e José,
esclarecido que está o sentido que quiseram dar à afirmação de que «aprender (ou navegar) é preciso, viver não é preciso», importa que fique claro que entendo que Vitorino Magalhães Godinho, no texto que citei, pretendia alertar-nos para a necessidade de entender a escola como um espaço de formação integral e de formação para a cidadania.
Esta interpretação faz contraponto com uma visão associada às teorias do capital humano, que entendem a escola como um espaço destinado preferencial e exclusivamente destinado à formação profissional, ao serviço da economia.
A oposição, que destaco no texto que prefacia a 3ª edição da obra de António Sérgio, é entre uma escola que deve apontar para uma formação humanista, em que o cidadão é mais importante que o operário, e uma escola ao serviço das visões economicistas da sociedade, em que o indivíduo só tem acesso à instrução na medida em que isso serve o capital.
A pedagogia sergiana é libertária; Sérgio definia-se como socialista libertário. Não revolucionário, mas sim reformista; era defensor da via das cooperativas. Infelizmente, poucas pessoas da área política que normalmente se reclama de Sérgio o leu ou estudou e muito menos lhe seguiu o exemplo.
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