Há dois dias escrevi sobre este assunto aqui.
Tinha acabado de conversar com o meu amigo (e há muitos anos atrás companheiro de armas) Paulo Prudêncio.
O Paulo é um professor que sempre se dedicou à escola a tempo inteiro. Durante muitos anos perdemo-nos o rasto, mas no ano passado voltei a encontrá-lo, precisamente nas Caldas da Rainha, tendo tomado conhecimento do extraordinário trabalho que ele desenvolveu no Agrupamento de Stº Onofre. Liderando uma equipa de excelentes professores, o Paulo e os colegas conseguiram transformar uma escola cheia de problemas, que integrou o projecto dos territórios educativos de intervenção prioritária, numa escola de referência, objecto de estudo a nível internacional, onde a qualidade das aprendizagens dos alunos permitiu reduzir os níveis de insucesso de mais de 40% para valores na ordem dos 2/3%.
Foi também uma das primeiras escolas básicas do país em que as novas tecnologias entraram, sem ter sido necessário esperar pelo “choque tecnológico” de Pinto de Sousa.
Tudo isto permitiu construir um espírito de inovação e de cooperação que criou laços fortíssimos entre os professores e a comunidade. A tal ponto que, mesmo com diversas investidas dos poderes instituídos, a unidade dos professores, e entre estes e os pais e encarregados de educação, permitiu a rejeição em uníssono do modelo de gestão autoritário e centralista que o ministério está a impor às escolas.
Foi isso que levou à decisão da DREL, que agora é objecto de denúncia pública por parte do SPGL, o que é o mínimo que um sindicato responsável e interventivo pode fazer. Por isso reproduzo aqui o texto que o Paulo me enviou, dando o meu modesto contributo para a denúncia de mais um acto inqualificável do ME:
CONTRA AS ESCOLAS MARCHAR, MARCHAR
(OU COMO SE DESTRÓI UM PROJECTO DE SUCESSO)
A demissão imposta pelo Ministério da Educação ao Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas de Santo Onofre, em Caldas da Rainha, tem um primeiro significado: para este Ministério da Educação o que menos importa é a qualidade das escolas e o bom ambiente de trabalho indispensável ao sucesso das aprendizagens. O Agrupamento de Santo Onofre colocou o interesse dos alunos acima da “guerra da avaliação de desempenho” e, por isso mesmo, rejeitou integralmente o modelo do ME, um modelo que substitui a cooperação pela concorrência e o trabalho colectivo pelo individualismo.
Numa visão muito “especial” de autonomia, o Ministério da Educação quer impor às escolas deste agrupamento um modelo de gestão e um modelo de avaliação que a escola de facto rejeita. Que a escola /agrupamento funcione bem, que os alunos tenham sucesso real (e não apenas estatístico…) que os professores se sintam unidos na construção de um projecto inovador e criativo, que a ligação com a comunidade seja exemplar, nada disso interessa aos que têm a arrogância do poder como único argumento. Como também não lhes interessa os vários prémios que o agrupamento tem recebido do jornal “O Público” na promoção dos jornais escolares, como não lhes interessa o terem sido pioneiros na informatização da escola e no cartão electrónico, como não lhes interessa o trabalho desenvolvido que a fez passar de TEIP a escola onde todos queriam matricular os filhos, como não lhes interessa os resultados escolares dos alunos, como não lhes interessa todos os projectos que ao longo dos anos tem desenvolvido com sucesso.
Ao que se sabe, o Ministério da Educação, do alto do seu despotismo nada iluminado, terá já nomeado três docentes para substituir – com que legalidade? – o Conselho Executivo legitimamente eleito. Um vindo de Peniche, outra de uma biblioteca e um outro não se sabe ainda donde … Paraquedistas impostos contra toda a comunidade escolar, poderão cumprir o seu papel de comissários políticos, mas não conseguirão, certamente, manter e desenvolver um projecto que exige paixão e uma liderança democraticamente aceite. Nestas coisas, o abuso de poder pura e simplesmente não funciona ou é mesmo contraproducente…
Esta brutal intervenção do Ministério da Educação (repete-se: em tudo contrária aos interesses dos alunos e aos de toda a comunidade) pretenderá talvez ser um “aviso à navegação”. “Quem se mete com o PS…leva!”. Lembram-se? Maria de Lurdes Rodrigues & Cia. passam agora à prática as diatribes verbais de Jorge Coelho: “Quem se mete com o ME… leva!”. Esta trupezeca pouco instruída ignora possivelmente que a história nunca deixa de derrubar, mais cedo ou mais tarde, os tiranetes e tiranetezitos de tigela ou de meia tigela e que o respeito pelo trabalho de gente honesta e competente é realmente aquilo que perdura. Sobretudo quando a honestidade e a competência têm de se impor contra a arrogância incompetente e ignorante de quem, por acaso e transitoriamente, ocupa os cadeirões do poder.
A direcção do SPGL exorta os professores e educadores do Agrupamento de Santo Onofre a que não desistam. O projecto de verdadeira autonomia que têm vindo a erguer não pode ser destruído. As trevas não duram sempre.
A Direcção do SPGL
Concordo com o Francisco. E com a opinião de que a denúncia pública deste caso por parte do SPGL é o mínimo que um sindicato interventivo e responsável pode fazer. Mas observo que o comunicado tem a data de hoje, 31 de Março, e não está no site.
O que está, desde domingo, dia 29, é um texto de solidariedade com os professores do Agrupamento de Santo Onofre, mas no blogue da Lista B:
http://professores-unidos.blogspot.com/2009/03/solidariedade-com-luta-dos-professores.html
Obrigado pela solidariedade meu caro companheiro.
Só um detalhe que escapou à tua redacção: não sou o actual presidente do CE; após 3 mandatos consecutivos, auto-limitei as minhas funções por imperativo democrático.
Em relação ao comentário de António Silva: o comunicado do SPGL foi-me enviado (e agradeci a gentileza) num mail que se dirigia tb à comunicação social e, mesmo assim, tive o cuidado de os questionar no sentido da divulgação do mesmo.
Abraço.
Paulo,
Claro que sei que já não és o presidente do CE e só por manifesta distracção não referi que foi por tua iniciativa que o vosso regulamento impõe, há vários anos, a limitação de mandatos.
Concepções da democracia que, infelizmente, quem nos governa nunca conheceu, ou já esqueceu.
Um abraço.
O comunicado da Dir. Regional do Oeste do SPGL já está no site
http://www.spgl.pt/artigo.aspx?sid=3bcceaa0-9a14-4be1-b80f-4b64d9c02fbc&cntx=tBLq5TrsjltulzIP3OrVb70%2BbyIdU%2FPTVvE2rabSBd%2FOEIRZZPYcKtBaBQvALdwH
Na blogosfera as coisas acontecem muito rapidamente e todos não somos demais para combater as iniquidades. É preciso avisar toda a gente, como dizia o poeta.
E há ainda outro detalhe que importa sublinhar: o Conselho Executivo deste singular agrupamento de Escolas não foi, e no mínimo até ao momento em que escrevo estas linhas, demitido. Vamos aguardar e esperar por todos os desenvolvimentos do processo. De uma coisa estou seguro: não desistiremos e a única poção mágica que nos move é força da razão. Somos muito crescidinhos e não temos nenhum problema com as propaladas prestação de contas.
Abraço.
obrigada por denunciares estas atrocidades da maria de lurdes e seus pares. Temos de combater esta gente, em defesa da escola pública e principalmente dos alunos que são a nossa esperança para o futuro
Um caso exemplar.
Resta-nos a solidariedade. E lutar.
A liberdade implica responsabilidade; é por isso que tantos homens a temem.
Bernard Shaw
Em democracia, a força da razão acaba sempre vencendo a Razão da Força. Esta é a que a Ministra e sua equipa têm usado para destruir a Escola Pública. Mas, mais cedo do que esperam estes Socialistas, irão ver toda esta sua campanha contra os professores com o objectivo de destruir um dos bens mais preciosos da democracia (a liberdade de aprender!) voltará a ser valorizada. Com um qualquer governo de minoritário, o que se tem passado em Portugal, sobretudo as vergonhas com a Educação, com a Saúde e com a Justiça, jamais teria acontecido! Esperemos pela Eleições. Em 1995 o PSD estava convencido de que ganhava as eleições… E alguns social-democratas (mal informados ou desinformados pelas sondagens) estavam mesmo convencidos de que teriam maioria Absoluta. Cá por mim… nunca mais votarei PS. Hoje apelo: Vota à Esquerda ou à Direita… Mas não votes PS. E, como cantava José Afonso, “Traz um Amigo Também”. Derrotaremos estes ditadores… Pela Democracia. Por Portugal!