Há quem ache que os professores que não entregaram os OI’s, para serem coerentes na sua luta, não devem realizar a auto-avaliação no final deste biénio.
A argumentação aduzida é de que fazer a auto-avaliação corresponderá a validar este modelo de ADD, contra o qual os professores estão em luta.
O Miguel Pinto avançou com uma outra perspectiva, a que apelidou de contra-fogo, por analogia com uma das estratégia mais eficazes no combate a incêndios florestais. Esta abordagem do Miguel surgiu como contraponto à visão que o PGuinote apresentava, em consonância com a opinião já referida mais acima, mas que parece ter evoluído para algo mais próximo do que me parece ser uma abordagem mais inteligente, pragmática e sobretudo eficaz, no combate ao trio que dirige o ME (por fax, fórum e chat) e às suas políticas de destruição da escola pública de qualidade para tod@s.
Vejamos porque defendo que, após a recusa de entrega dos OI’s, a luta passa por realizar a auto-avaliação e exigir que os órgãos de gestão avaliem o desempenho de todos os professores, no biénio 2007/09:
- Não fazer a auto-avaliação significa validar a interpretação de que o que os professores querem é não ser avaliados;
- Não fazer a auto-avaliação implica aceitar pacificamente a “legislação por fórum da DGRHE”, ilibando os PCE’s adesivos do ónus de recusarem avaliar os seus professores (ficam libertos das consequências previstas no art. 38º do DR 2/2008);
- Não fazer a auto-avaliação, e aceitar a interpretação abusiva que é feita por estes adesivos, é prolongar o congelamento das progressões de milhares de professores, ao arrepio do mais elementar bom senso que deve guiar as acções de gente com formação cívica, intelectual e científica teoricamente acima da média da população;
- Não fazer a auto-avaliação no final do biénio previsto é romper com a prática que existia no anterior modelo de avaliação de professores, dando implicitamente razão a Pinto de Sousa quando afirma que nunca houve avaliação de professores;
- Pelo contrário, realizar a auto-avaliação, e exigir que o órgão de gestão atribua uma classificação de serviço, é obrigar os PCE’s a cumprir a lei, confrontando-os com a desobediência a ordens ilegais;
- Realizar a auto-avaliação, e exigir a atribuição de uma classificação de serviço, é impedir que o ME arrecade mais uns milhões de euros, que seriam obtidos impedindo a progressão aos professores que tenham direito a ela;
- Realizar a auto-avaliação, e exigir a atribuição de uma classificação de serviço, é demonstrar aos responsáveis do ministério que não podem continuar a fazer o que lhes apetece, que os professores conhecem os seus direitos e sabem ler as leis (ao contrário do que eles pensam).
É por este conjunto de razões que o radicalismo infanto-juvenil, que transparece em algumas posições (de gente que é ouvida e lida), me parece totalmente desaconselhável, sobretudo numa fase da luta que apela a uma reafirmação da unidade, que possa apaziguar e sarar algumas feridas abertas com a divisão verificada a propósito da entrega dos OI’s.
Declaração de interesses: No actual quadro legislativo (com ou sem simplex) é totalmente indiferente para a minha carreira a contagem deste biénio, porque já não tenho para onde progredir.
Francisco,
Tentando encetar aqui um espaço de diálogo contigo – de que espero não me vir a arrepender -, gostaria de te dizer que, ao contrário do que poderás pensar, não sou insensível a alguns dos argumentos que aduzes neste “post”. O que me preocupa é, acima de tudo, a imagem que iremos projectar na opinião pública e junto dos nossos próprios colegas se, no final do ano lectivo, aceitarmos preencher um documento que decorre de um modelo de avaliação que temos estado a combater. E, quando falo dos «nossos colegas», estou também a pensar naqueles que agora cederam na entrega dos objectivos individuais. Dirás que não temos de nos preocupar com a opinião desses colegas. Contudo, sabendo que muitos deles, apesar de não terem tido a coragem de manter uma atitude de resistência (pelos mais variados motivos, muitos dos quais não estou em condições de poder criticar), continuam a encarar os professores que não entregaram os objectivos como um exemplo de coerência e de integridade. Palpita-me que uma boa parte deles classificará como oportunistas os professores que, não tendo entregue os objectivos individuais, quererão mesmo assim ser avaliados à luz de um modelo que disseram rejeitar. Afinal o apelo à não entrega dos objectivos individuais não foi feito precisamente para que esse modelo fosse suspenso?
E nota que não estou a fazer aqui uma qualquer crítica velada à actuação dos sindicatos. O debate sobre o que fazer em relação à auto-avaliação está também a ser realizado no seio dos movimentos e as pessoas têm mais dúvidas do que certezas. A minha posição é meramente pessoal, em nada vincula a APEDE, e está tão sujeita a evoluções como a posição inicial do Guinote (a qual, como tu referes, começou por coincidir com a minha). Neste momento, e depois de trocar impressões com vários colegas e de ver diversas opiniões publicadas (incluindo as tuas), inclino-me para uma solução intermédia entre a recusa pura e simples de entrega da ficha de auto-avaliação e a sua entrega no final do ano lectivo. Os professores poderão entregar, em lugar da ficha de auto-avaliação prevista no dito modelo, um relatório de reflexão sobre o seu desempenho que constitua uma forma de se auto-avaliarem sem, ao mesmo tempo, pactuarem com o modelo imposto pelo Ministério. Esse relatório até poderá ser mais completo e exaustivo do que o exigido na referida ficha. E também poderá (e deverá) incluir uma crítica cerrada às condições de trabalho com que os professores se debatem actualmente e a todas as imposições arbitrárias que emanam do Ministério. E esses relatórios serão até susceptíveis de divulgação fora das escolas, se os seus autores assim o entenderem, de modo a que a chamada «opinião pública» constate que os professores não se recusam à auto-avaliação e que, com ela, efectuam também uma avaliação negativa das condições actuais do sistema de ensino.
Mário,
colocas um conjunto vasto de questões, numa perspectiva com que não consigo concordar.
Procurarei responder-lhes, abordando cada tema de sua vez.
O objectivo será o de clarificar posições, separando a questão dos medos atávicos que determinaram a acção de muitos colegas, em relação à discussão sobre a melhor forma de concretizar a auto-avaliação, que é não apenas um dever profissional, como também um passo decisivo para garantir uma classificação de serviço minimamente justa. Esse é um direito de que não podemos nem devemos abdicar.
Para isso voltarei ao tema em futuras entradas no blogue.
O tempo não é de palpites, mas de análise séria e de procura das melhores soluções, para derrubar o conjunto das políticas que têm contribuído para afundar a escola pública de qualidade para tod@s.
[...] Ir para os Comentários Em resposta a uma entrada anterior, o Mário Machaqueiro aponta algumas questões que o levam a questionar a justeza da realização da auto-avaliação por parte dos professores que recusaram entregar OI’s ao abrigo do simplex [...]