Maio 16, 2008...10:02 pm
Professores, sindicatos e movimentos
A profissão docente caracteriza-se por uma enorme contradição entre uma atração (quase fatal) para o isolamento e a fragmentação e uma cada vez maior necessidade de trabalho cooperativo. Não importa agora discutir porque é que isso acontece mas, pelo contrário, tentar perceber em que medida esse isolamento profissional condiciona a atitude dos professores face ao movimento sindical e à necessidade de contestar as políticas educativas.
Vem isto a propósito da forma algo desbragada como alguns professores, em particular os que se arrogam o direito de uma representação profissional “supra-sindical”, têm criticado os sindicatos de professores que, pela primeira vez em três décadas, conseguiram entender-se numa plataforma única contra o ministério.
Olhando para o que se diz e se escreve, seja em reuniões restritas, seja em blogues de leitura pública e grande circulação, fica uma dúvida por esclarecer: o que é que move estas pessoas que, sendo professores, exigem dos seus únicos representantes legais um comportamento eticamente irrepreensível e, ao mesmo tempo, vão espalhando traulitada contra colegas, sejam sindicalizados ou não, que discordam dos seus pontos de vista?
Os exemplos são inúmeros mas, por uma questão de conhecimento próximo, os que se seguem são suficientemente significativos para promover uma reflexão urgente entre os professores que querem combater as políticas educativas de MLR, antes de combaterem as direcções sindicais.
Muito mais importante do que ir a esta farsa de manifestação será ir às Caldas da Rainha participar na Assembleia Geral da APEDE (…) com a garantia que os professores que fazem parte da APEDE não existem para espetar o punhal nas costas dos colegas como os sindicatos - todos - tão bem sabem fazer…
Estou farto desses******** dos sindicatos e não lhes devo nada!» FT
«…devo dizer que fui, tal como o Francisco Santos, e outros (poucos) colegas, à vigília na 5 de Outubro. Aquilo não foi uma vigília, foi mesmo um velório, o velório da grande MANIFESTAÇÃO de dia 8 de Março!!! Apesar dos berros desgarrados dos representantes da plataforma, que se foram sucedendo no uso da palavra, tentando cada um pior que o outro (pois às tantas já ninguém ouvia ou ligava patavina) justificar o injustificável, a sensação que ficou é que a luta MORREU, está MORTA e ENTERRADA! (…)
(…)Amanhã se verá até que ponto ficou abalado o movimento genuíno de professores, que levou 100 mil à rua, no dia 8 de Março! Amanhã veremos o que consegue a FENPROF (e a plataforma) mobilizar, depois do que aconteceu! Amanhã veremos que falta fazem afinal os professores que fizeram a diferença a 8 de Março! » RS
Afinal o que é que se pretende com este discurso? Quem escreve (e se atreve a fazer estas afirmações em público) persegue que tipo de objectivos? Imaginam estes professores que são uma vanguarda iluminada que irá varrer os sindicatos para o caixote de lixo da história? Acham que representam o quê e foram ungidos com que ligitimidade? Será que não se dão conta de que este discurso divide em vez de acrescentar? E que isso constitui o maior obstáculo ao combate contra o governo e as suas políticas educativas?
Ou será que gostavam de mudar os sindicatos e refazê-los à sua imagem e semelhança? É que se o objectivo é esse, sendo perfeitamente legítimo, exige uma estratégia completamente diversa: terão que se inscrever, pagar quotas, participar nas assembleias, promover reuniões e debates, construir programas alternativos e concorrer aos órgãos sociais. Não há outro caminho!
Neste caso vem-me à memória uma máxima dos tempos de juventude - «Quem está fora, racha lenha»…

Poupança de combustível
Evolução do roubo à mão armada

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6 Comentários
Maio 17, 2008 às 12:19 am
Francisco e restantes,
Os sindicatos existentes não satisfazem, porque têm uma prática burocrática e os seus mecanismos não permitem uma verdadeira democracia participativa… se somos pela democracia, a certa altura não podemos mais com os controleiros do aparelho sindical, seja qual for a sua coloração. Os estatutos dos sindicatos estão blindados e é muito difícil tentar o que o Francisco Santos está a propor.
Maio 17, 2008 às 1:30 am
Francisco,
Não vou alimentar polémicas, sinceramente não vejo nenhuma vantagem neste tipo de situações. Digo o que penso, sempre direi, e quem não gosta, pode sempre rebater desde que tenha algum cuidado com o tom e a forma como o faz. Só me apetece dizer o seguinte e por mim dou por encerrado a minha participação nesta pseudo-polémica: os movimentos de professores aceitaram integrar a manifestação de 8 de Março PRECISAMENTE para não criar divisões ou separatismos na classe! Eu nunca tinha ido a nenhuma manif e, como eu, milhares de professores! Se fomos foi porque sentimos que acima das diferenças políticas existia algo mais forte que nos unia! E fui de pleno coração! De bandeiras e faixas na mão! E tu sabes disto pois estiveste, do meu lado, a orientar a marcha de Sintra! A divisão surgiu depois e não foram os movimentos de professores que a protagonizaram! E muito menos professores como eu! E já agora, para terminar, o ditado popular diz antes o seguinte: “Quem está de fora, NÃO racha lenha!” E é precisamente isso que os sindicatos acharam dos movimentos de professores - estão de fora… não racham lenha! Foi aí que perderam uma ocasião histórica de derrotar o ME! Parabéns! A eles e aos que acham que a luta só se deve fazer por dentro, ou ao lado, se se portarem bem! Como se os sindicatos fossem uma estrutura aberta e realmente democrática! Ainda assim, nunca desvalorizei a sua importância no processo de luta, apenas acho que podiam e deviam ter cedido menos, que podiam e deviam ter lutado mais e melhor pelo mandato que receberam na rua. Serei agora queimado na Praça do Comércio, por pensar isto? Lá onde me manifestei, pela primeira vez, ao lado dos sindicatos? Voltou a Inquisição?
Um abraço e um sorriso, porque a polémica para mim morre aqui!
Maio 17, 2008 às 8:32 am
Manuel Baptista,
Sobre as práticas burocratizadas no interior das organizações sindicais, tenho a lembrança do tempo em que participei na vida sindical, mas que já é passado há mais de vinte anos.
Como é hoje em dia? Admito que as coisas se mantenham no essencial de uma forma muito igual.
No entanto continuo a contrapor a ideia de que a única forma consequente de criticar é participando.
Se é verdade que as estruturas constrangem os actores, não é menos verdade que os actores, através da sua acção individual e colectiva, também modificam as estruturas. É disso que se trata quando afirmo que quem quer efectivamente mudar algo numa organização tem que mudá-la por dentro.
Ficar de fora a criticar é tarefa para “velhos do Restelo”.
Por mim continuarei a participar nas iniciativas que juntem, que somem, que mobilizem professores contra as políticas de educação que considero erradas. Quanto às outras iniciativas, não me revendo nelas limitar-me-ei a observá-las ao longe.
Se de alguma forma fiz referência a um movimento em particular foi porque estive por dentro, dei a cara e senti a legitimidade de quem participa para criticar. Agora que me afastei em definitivo, as iniciativas que esse movimento promover serão vistas e comentadas da mesma forma que as iniciativas de qualquer outra organização de professores.
Maio 17, 2008 às 9:45 am
Olá Francisco,
sabes, eu deixei o sindicato da fenprof, passados vinte e tal anos de lá estar inscrito e uma boa meia dúzia (dos últimos anos) a tentar erguer uma corrente que significasse outra forma de fazer sindicalismo. Ou seja um sindicalismo não «político-partidário-ideológico» um sindicalismo de base, tolerante e sobretudo respeitador do mandato das bases. Os «dirigentes» são apenas mandatários das bases e não devem ter nenhum privilégio devido a isso.
Este entendimento de sindicalismo é de tradição (longa tradição europeia, que remonta aos alvores do séc. 20). nos países de «velha» democracia «burguesa» os sindicatos têm tido muitas vicissitudes, mas nunca atingiram o grau de burocratização e de arrogância estalinista (mesmo os de «direita», aqui têm tiques tipicamente estalinistas …. ). Sobretudo, porque dentro desse sindicatos existem correntes sindicais combativas e com uma noção muito simples o sindicato é uma «organização de classe» não é uma frente «ideológico-política».
Ora, não maior cego do que aquele que não quer ver: de
Maio 18, 2008 às 6:40 pm
É triste verificar que os sindicatos - mais uma vez ao longo de todos estes anos - nos entregaram ao ME. Mas, desta vez, o ME conseguiu destrui-los de vez! Quem mais vai acreditar na sua capacidade de mediação? Por mim…jamais!
Quando 100.000 estavam na rua e muitos mais queriam estar eles consideraram que …ainda não havia condições para destronar esta tríade exterminadora! Conseguiram mesmo calar os movimentos de professores que tinham começado a surgir!
É vergonhosa a forma como continuam a aparecer na Comunicação Social como nossos representantes.
Gostava de apelar aos colegas para que terminassem a sua inscrição nestes pseudo-representantes da classe!
Comecemos todos a pensar pela própria cabeça , a contratar advogados que nos defendam , a denunciar na opinião pública o que, de facto, está a acontecer nas escolas!
Maio 18, 2008 às 10:26 pm
Maria Dinis Machado,
lamento mas não consigo acompanhar a sua leitura dos acontecimentos.
A interpretação dos motivos que levaram 100 mil (admitamos ser esse o número correcto) à rua e dos motivos porque passadas algumas semanas apenas nos juntamos umas centenas não pode ser tão simplista como muita gente quer.
Encontrar bodes expiatórios é algo tipicamente tuga. Neste caso os sindicatos e a sua plataforma estão aí à mão de semear. Mas atirar as culpas para os sindicalistas, quando nós próprios não nos dispomos a sair de casa e levantar a voz contra as prepotências, não nos fará ganhar batalha nenhuma.
Quanto ao seu apelo à dessindicalização direi apenas que percebo a sua zanga e frustração, mas essas decisões têm que ser individuais e não induzidas por terceiros. Por isso, apesar de não ser sindicalizado há mais de vinte anos, não faço nunca esse tipo de apelo a ninguém.
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