Abril 14, 2008...7:28 pm

Os interesses do governo, a contra-informação e os “professores ingénuos”

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Infelizmente há mesmo quem pareça querer entregar o ouro aos bandidos.

Desde sábado que temos assistido a uma convergência espúria entre o governo, alguns especialistas de contra-informação e uns quantos “idiotas úteis”, que, sendo professores, provavelmente já se esqueceram do tempo em que eram contratados ou “provisórios”, como nos chamavam nessa altura.

O aparecimento de alguns movimentos genuinamente espontâneos de professores, que se organizaram através da blogosfera e das novas tecnologias de comunicação, foi determinante para a criação de uma unidade impensável à três ou quatro meses atrás. Dessa unidade nasceu a necessidade de os próprios sindicatos reverem as suas posturas divisionistas, o que acabou por pressionar o ministério e forçá-lo a aceitar negociar decisões que ainda há dias anunciava como irreversíveis: “Essa (avaliação igual e mínima em todas as escolas) é realmente a grande questão que nos divide, pois representa um ponto de honra para o Ministério que as escolas que já estão a avançar com a avaliação, e de forma bem feita, não voltem atrás”, afirmou a mesma fonte, que defende que o Ministério “não pode agora pedir às escolas que estão a fazer bem para começarem a fazer as coisas mal”.» Estas afirmações, é bom lembrar, foram proferidas poucas horas antes da ministra e a Plataforma Sindical anunciarem o entendimento que é agora pomo de discórdia.

Face a esta situação, pergunto-me o que pretendem alguns movimentos e professores que se insurgem contra a assinatura deste entendimento entre a Plataforma de Sindicatos e o ministério? Que alternativas propõem estes senhores aos 7 mil professores que precisam de uma classificação de serviço este ano? E que alternativas sugerem para os restantes 140 mil se não houver assinatura de nenhum protocolo de entendimento?

Se não houver assinatura do documento, centenas ou milhares de contratados e professores que mudam de escalão poderão ser avaliados de acordo com procedimentos máximos. Para não falar das famosas escolas de Leiria, de Seia e de Portalegre, aqui ao pé de mim conheço duas em que já havia aulas assistidas marcadas e mais de trinta parâmetros para avaliar. É isso que os movimentos de professores querem?

E alguém tem a garantia de que a DGRHE iria aceitar os procedimentos mínimos a todas as escolas? É correr esse risco que os movimentos de professores querem?

Aplicado este ano o modelo máximo em meia dúzia, uma dúzia, uma centena de escolas, como é que conseguiríamos que o governo se sentasse à mesa para alterar o modelo no ano de 2008/09? É desta cedência que falam os movimentos de professores? É esse risco de não ter nada para negociar, porque o modelo já foi aplicado este ano, que os movimentos de professores querem correr?

Porque é que os movimentos de professores se insurgem contra a presença dos representantes sindicais numa comissão paritária, na qual já têm assento os professores-fantoches do Conselho de Escolas, mais a IGE e uns quantos amigos do CCAP? Será que os movimentos de professores preferiam não ter nessa comissão nenhum representante sindical?

Sem a assinatura do entendimento, os contratados com menos de 4 meses não veriam o seu tempo contado, as classificações de Regular e Insuficiente seriam desde já penalizadas, os conselhos gerais provisórios teriam que ser já eleitos, a formação contínua teria que continuar a ser feita aos sábados, domingos, à noite e nas férias. Era isto que os movimentos de professores queriam?

Respondam a estas questões com toda a honestidade e sinceridade. Os professores que amanhã vão estar nos plenários precisam de saber se os movimentos de professores defendem avaliações diferenciadas nas escolas, os contratados penalizados, a formação nas horas livres, para em consciência poderem optar pela ratificação ou não do memorando e pela aprovação ou não da moção que a Plataforma Sindical pôs à discussão para o Dia D.

8 Comentários

  • Discordo em absoluto deste texto:

    “Se não houver assinatura do documento, centenas ou milhares de contratados e professores que mudam de escalão poderão ser avaliados de acordo com procedimentos máximos. Para não falar das famosas escolas de Leiria, de Seia e de Portalegre, aqui ao pé de mim conheço duas em que já havia aulas assistidas marcadas e mais de trinta parâmetros para avaliar. É isso que os movimentos de professores querem?”

    Em mentira que em Leiria haja alguma Escola nestas circunstâncias (ponto prévio…). E se houvesse avaliação pelo 2/2008 esta só iria mostrar, à saciedade, que este não funcionava. Agora com um ano inteiro para o pôr a andar vai funcionar, com os custos incomportáveis para quem for avaliador ou avaliando…

    “E alguém tem a garantia de que a DGRHE iria aceitar os procedimentos mínimos a todas as escolas? É correr esse risco que os movimentos de professores querem?”

    Mas não foi isso que a Ministra e o SE disseram publicamente, aos CE para estes fingirem que eram convencidos e convencerem os CP?

    “Aplicado este ano o modelo máximo em meia dúzia, uma dúzia, uma centena de escolas, como é que conseguiríamos que o governo se sentasse à mesa para alterar o modelo no ano de 2008/09?”

    Bastava fazer tudo o que estava previsto para que Escolas deixassem de funcionar e Ministra iria perceber…

    “Porque é que os movimentos de professores se insurgem contra a presença dos representantes sindicais numa comissão paritária, na qual já têm assento os professores-fantoches do Conselho de Escolas, mais a IGE e uns quantos amigos do CCAP? Será que os movimentos de professores preferiam não ter nessa comissão nenhum representante sindical?”

    A melhor maneira de tornar legítima uma fantochada é colocar lá uns fantoches dos nossos para tudo passar a correr bem?

    “Sem a assinatura do entendimento, os contratados com menos de 4 meses não veriam o seu tempo contado, as classificações de Regular e Insuficiente seriam desde já penalizadas, os conselhos gerais provisórios teriam que ser já eleitos, a formação contínua teria que continuar a ser feita aos sábados, domingos, à noite e nas férias. Era isto que os movimentos de professores queriam?”

    Quer-se-me parecer que o amigo leu mal o que se fala sobre formação no “acordo”… Não era melhor ler outra vez e vir aqui pedir desculpas sobre o que disse neste ponto…?!?

    E amanhã lá estarei (espero não ter de perder muitas aulas para tal) para acabar com o “acordo”…

  • Aqui, publicamente só digo isto e penso que já é demasiado…
    Em troca de um qualquer acordo de avaliação, salva-se a face do primeiro-ministro – a ministra Maria de Lurdes Rodrigues e o falcão secretário de Estado Valter Lemos já estão irremediavelmente perdidos – e do Partido Socialista de matriz socratina, que vão cantar vitória e continuar a impor ao País a perseguição de classes a que chamam “reformas”. Como se a avaliação fosse sequer a causa principal dos últimos protestos e, por isso, se devesse aceitar um compromisso que reduz a importância das demais queixas… Até porque, como é sabido de todos, nenhum professor queria, ou quer, evitar uma avaliação até porque é avaliado todos os dias: não queriam era o absurdo de uma avaliação-que-não-avalia o que deve, nem como deve.

  • Lamento discordar de si. Mas faço-o com lealdade. Eu acho que a hipótese do tal acordo / entendimento é uma autêntica tábua de salvação que se oferece à ministra e à política educativa do senhor engenheiro feito a correr.
    Não creio que os professores que estão contra o entendimento / acordo sejam “idiotas úteis”. Pode até ser que os haja, mas não serão todos.
    Eu acho que aceitar esse “acordo / entendimento” é comprometer tudo o resto por que você tem lutado denodadamente.
    Agradecia que visse os meus dois últimos textos – um nas Sete Peles, outro no Tempo Breve. Quando escrevi que mantinha toda a consideração e estima pelos que estão a favor do acordo, você era, e é, uma das pessoas em que eu estava a pensar.
    Tinha que lhe dizer isto. Não se zangue.
    Um abraço.

  • Elisabete Neves

    Subscrevo inteiramente as palavras do António Mota.
    Ninguém que ver os contratados prejudicados, mas “migalhas” nunca mataram a fome a ninguém.
    Acreditar na bondade de um acordo que apenas salvou a cara da Ministra e respectivos… é tontice.
    Não é hora para ceder, colegas. É o momento exacto para demonstrarmos que somos mais inteligentes do que eles e que, desta vez, não há quem nos possa enganar.
    Abraço solidário a todos os que continuam a querer resolver as coisas de vez.

  • Os “movimentos” não estão contra os sindicatos, apenas queriam algo de mais palpável. Os sindicatos têm de fazer mais e melhor.
    Cabe a todos nós, professores, mostrar aos sindicatos que podem continuar a contar com 100 mil ou mais professores mobilizados.
    SE TODOS ESTIVERMOS UNIDOS ESCOLA NENHUMA PODERÁ LEVAR ISTO POR DIANTE PARA O ANO.

  • filomena pereira

    O acordo foi o possível e permite continuar a luta. É necessário não desmobilizar um segundo que seja e estar atento ao que se vai passar sobretudo em tempos mais mortos nas escolas. Sem dúvida que houve, pela primeira vêz nos ultímos anos, uma hipotese de entendimento que embora esteja longe do que pretendemos, é de imediato a nosso favor e pode a curto prazo, se soubermos, capitalizar a nosso favor os apoios de alunos e encarregados de educação. Na minha escola, a compreensão acerca do acordo foi imediata e vejo com alegria a vontade de não desmobilizar.
    Por mim a luta continua!

  • [...] Reflectindo sobre diferenças estratégicas Jump to Comments Num grupo de discussão no google, animado por professores preocupados com a defesa da Escola Pública, estabeleceu-se uma discussão a propósito deste texto. [...]

  • Os movimentos de professores e a maioria dos 100 000 queriam rever o ECD nos seus pontos absurdos, a gestão escolar e as injustiças laborais geradas pela legislação bacoca.
    Cedeu-se a uma tomada de reféns (http://porabocanotrombone.blogspot.com/2008/04/vilipendiados-ou-cuspidos.html), criando um precedente perigoso. O ónus da responsabilidade dos contratados estava nas mãos do ME e lá deveria continuar; deste modo, foram usados e serão usados como dumping profissional.
    O que sei é que o entendimento não impediu a implementação do modelo máximo (com os seus trinta e tal parâmetros) a partir de Setembro, com a destruidora divisão da classe em duas categorias e com o autocrático modelo de gestão.
    Foi para isto que os professores se revoltaram?


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