Março 20, 2008...7:49 pm

Indisciplina, Diversidade e Acesso alargado ao Ensino

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Circula pela blogosfera a história de uma aluna de um “liceu de referência” do Porto (e já agora do País) que teve um comportamento indisciplinado (e merecedor de reprovação pública) para com a sua professora, dentro da sala de aula.

Segundo o que pude observar no vídeo disponível no “youtube”, a professora terá confiscado o telemóvel à aluna e esta, revoltando-se, terá exigido à professora a devolução do objecto, tendo mesmo ultrapassado os limites do tolerável, quer em termos verbais, quer em termos físicos.

Li diversos comentários, tanto no site do jornal que divulgou a notícia, como em vários blogues. Em termos gerais as posições balançam entre a condenação da aluna e a crítica à professora, por esta última não ter sabido ou não ter conseguido manter a disciplina na sala de aula.

Em nenhum dos comentários vi abordada a questão, que aqui é fundamental, do entendimento da diversidade como um factor determinante na Escola Pública do século XXI.

Não me interessa agora condenar ninguém. A perspectiva imediatista da punição da aluna pelo comportamento inadequado, ou a censura da professora pela incapacidade de “controlar” a sala de aula, são questões menores.

O problema fulcral e à volta do qual se está a fazer um debate inquinado sobre a “qualidade” da educação tem a ver com a descontinuidade dos conceitos em que assentam os modelos de uma escola para todos, como existe no Ensino Básico obrigatório e uma Escola só para alguns, uma Escola de Elite, que ainda se constitui como uma escola propedêutica para o Ensino Superior, como continua a ser o Ensino Secundário.

Para mim o que fica retratado no vídeo daquela situação de indisciplina, não é a “falta de pulso” ou “falta de autoridade” da professora. Nem a “má educação” da aluna. É sim a incapacidade que a professora demonstrou de lidar com a diversidade que lhe entrou pela sala de aula dentro. É a sua incapacidade de entender que a autoridade não é outorgada por uma entidade suprema, nem está associada ao exercício da sua função docente.

Numa escola a que só alguns tinham acesso os símbolos do poder que eram aceites por uma classe e, como tal, respeitados pelos respectivos filhos eram apenas contestados como forma de afirmação de adolescentes à procura da sua entrada no mundo adulto.

Numa escola a que todos têm acesso muitos desses símbolos são incompreensíveis e enquanto tal rejeitados como violentadores da individualidade dos alunos. É por isso que não é possível reproduzir estereótipos que funcionavam há trinta, quarenta anos atrás. Como tal cada professor tem que aprender a lidar com a diversidade e conseguir obter o reconhecimento da autoridade, a qual tem que ser fundada em princípios de justiça, equidade e diálogo concertado.

Para isso os professores do Ensino Secundário têm que perceber que o diploma que outorgam no final do seu ciclo de estudos pouco ou nenhum valor tem para os seus alunos e para a sociedade em que eles estão inseridos. E a breve prazo, com o aumento do número de licenciados, também esse título deixará de ter o valor de mercado que tinha para uma classe média expectante em termos de ascensão social.

Infelizmente, a generalidade dos professores “do liceu” tem vivido demasiado afastada da realidade da escola de massas. Apesar da enorme explosão verificada no acesso à escola e do aumento exponencial do número de alunos no ensino secundário, a possibilidade que até há pouco tempo estas escolas tinham de excluir os alunos problemáticos permitiu-lhes viver numa redoma, que nada tem a ver com a Escola Pública de massas. A chegada e permanência de muitos alunos que não possuem as referências de classe média e não valorizam a ascensão social, que eventualmente o diploma do secundário lhes poderia permitir, introduziu perturbações no sistema, de que a história retratada é apenas um exemplo.

15 Comentários

  • Há países que também passaram pela experiência da escola de massas e onde estas coisas não acontecem, pelo menos com a frequência assustadora com que acontecem em Portugal. E há países onde ainda é pior. Se olharmos para uns e para outros, vermos que os sistemas de ensino nos primeiros têm uma característica em comum: as chamadas turmas de nível, ou mesmo escolas de nível, que permitem aos alunos «que não possuem as referências da classe média» e não aceitam nem conhecem «os símbolos do poder» frequentar escolas com outras referências - como a do trabalho bem feito, que radica nas corporações medievais e é por isso ainda hoje típica das sociedades do centro da Europa.
    Isto não significa que se tenha acabado com os «liceus», como infelizmente se fez em Portugal. O que se fez foi reconhecer e acolher a diversidade, não na sala de aula - onde ela será sempre, e necessariamente, perturbadora - mas sim no sistema de ensino. Em vez da experiência desastrosa das escolas unificadas ou das comprehensive schools, optou-se por estabelecer escolas diversificadas para alunos diversificados. Isto permite dar aos professores treino específico para cada tipo de escola e de aluno.
    Na Suíça, onde ensinei seis anos, uma cenas destas seria simplesmente impensável. No dia seguinte a um incidente com a décima parte da gravidade deste o aluno envolvido já estaria a ser avaliado com vista a um possível internamento numa instituição correccional, e os pais já estariam a contas com a justiça. É outro mundo, é claro; mas não se diga que incidentes como estes são inevitabilidades resultantes da existência da escola de massas, porque não são.

  • Concordo com muito do que o Francisco Santos escreveu, no entanto discordo que a escola secundária tenha se saber lidar com estas situações, o J.L.Sarmento dá algumas sugestões com as quais concordo, que não pondo em causa a universilalidade de acesso à escola pública, promovem uma verdadeira diferenciação pedagógica, permitindo a existência dentro de uma sistema de ensino de Turmas/Escolas nível, capazes de responder à diversidade de públicos.

    As escolas que são tudo, Gerais, Artísticas, Profissionais, não são nada!

    É isto que a maioria de nós não percebe, incluindo actual ministra.

    Precisamos de escolas muito diferentes, a partir do 7.º ano: Umas Liceais, outras Artísticas, Tecnológias, e Profissionais.

  • JLSarmento,
    Não acho que este tipo de incidente seja inevitável. Pelo contrário, penso que tem que existir a montante um conjunto de procedimentos que evite que isto aconteça. Como também penso que, uma vez resolvido o problema a montante, se deve ser mais exigente e actuante quando algo de semelhante acontece.
    O que quis fazer ao colocar o problema nestes termos, foi sair da discussão simplista em torno do “quem tem a culpa”. Trata-se antes de tudo de um problema de definição dos contornos e de organização do sistema, como é o caso dos países citados, no seu comentário.

  • DA,
    Penso que uma mesma escola pode e deve ser capaz de acolher a diversidade, fazendo a diferenciação das suas ofertas curriculares e formativas.
    Obviamente que a formação e treino dos professores para acolherem essa diversidade tem que ser cuidada e permanente, ao mesmo tempo que a gestão desses recursos humanos tem que ser feita com toda a ponderação.

  • Mário Artur Machaqueiro
    Março 21, 2008 às 4:08 pm

    Caro Francisco,

    Prolongando aqui a discussão que já temos tido noutros lugares, devo dizer que discordo totalmente da forma como colocas o problema, criando uma dicotomia entre “escola pública de massas” e um ensino secundário que seria ainda, supostamente, uma “escola de elite”. Acontece que o ensino secundário está hoje tão massificado como o da escolaridade obrigatória, e que muitos dos problemas que afectam o segundo destes níveis de ensino já desaguaram abundantemente para o ensino secundário. Por outro lado, a conversa sobre a “diversidade” e o passar uma esponja por cima da questão da “culpabilização” são já pretextos requentados para perpetuarmos a perspectiva sociologista na qual nunca existem responsabilidades individuais: é tudo uma questão de “factores” e de “condicionantes sociais”, em nome dos quais se pode sempre absolver quaisquer comportamentos que, em última instância, são epifenómenos de causas que os transcendem. Um bocadinho mais, e estamos em plena vitimologia: só há vítimas, só há coitadinhos. A aluna malcriada e violenta que agride a professora é só mais uma “vítima” da sociedade. E é preciso, claro está, “compreendê-la”. Pois é. São os deterministas de todas as cores (e a esquerda, “hélas”, está cheia deles) que em grande medida nos conduziram ao beco onde estamos mergulhados, acreditando que o ser humano é bonzinho, sendo a malandra da sociedade que o corrompe (ao que apetece perguntar: e quem corrompe a sociedade?). Os nossos jovenzinhos estão cheios de potencial; as malvadas das “condições sociais” é que os tornaram assim: não uns energúmenos a quem se deve dar um par de tabefes, mas uns coitadinhos que representam a “diversidade social” que a escola deve acolher. Pleeeease! Cut the crap!
    E um abraço

  • Mário Artur Machaqueiro
    Março 21, 2008 às 4:37 pm

    Mais uma coisa. A questão da autoridade do professor. Ela ultrapassa, de facto, o mero espaço da escola. A erosão da autoridade do professor decorre de uma situação geral em que a própria ideia de uma autoridade decorrente da posse de um saber foi totalmente desvalorizada ou, como alguns diziam há pouco tempo, “descanonizada”. Há pouco tempo também se chamava a isso “condição pós-moderna”. Essa tal descanonização dos saberes significa, basicamente, despromover a velha ideologia “iluminista”, contrapondo-lhe um nivelamento descontraído que proíbe a destrinça entre ignorância e o saber e que prolonga a diluição relativista da “alta cultura” no “todo cultural”. Os alunos, tanto os da escolaridade obrigatória como os do secundário, são hoje filhos desse processo e têm, portanto, uma dificuldade acrescida em reconhecer ao professor qualquer autoridade. Mas a resposta para isto não pode ser “mais do mesmo”. Uma escola decididamente emancipatória é uma escola que se constitui como lugar de resistência à imbecilização colectiva. E essa resistência passa por criar mecanismos de reabilitação da “autoritas” do professor. Passa, entre muitas outras coisas, por fazer compreender aos alunos e às respectivas famílias que nem tudo é igual e que não estamos todos ao mesmo nível. Passa por fazer compreender que, no espaço da democracia, nem tudo é negociável. Passa por sermos capazes de pensar as dimensões não-democráticas que necessariamente se inscrevem na democracia. Pois nem toda a autoridade pode e deve ser partilhada, nem todas as decisões podem e devem ser objecto de negociação, e nem todos os indivíduos podem deter autoridade sobre qualquer assunto. Esta concepção que, de facto, é não-democrática, atravessa no entanto o exercício da democracia. E por uma razão muito simples: nenhum sistema – mesmo a democracia mais participativa possível – funciona sem hierarquização de funções, sem uma distinção mínima entre instâncias de comando e instâncias de execução, havendo uma multiplicidade de contextos em que a distribuição das funções só resulta se for relativamente irreversível e desigual. E esta é uma situação que nenhuma denúncia foucaultiana das relações entre saber e poder consegue rasurar. Tenho para mim como evidente que o processo educativo constitui o exemplo do que acabei de referir. A sua dimensão disciplinadora tem de começar por ser imposta antes de ser auto-interiorizada. E só mais tarde ela poderá ser objecto de avaliação, de problematização e de negociação. Muitos pedagogos pensam que democratizar a relação pedagógica exige o fim da desigualdade de poder entre professor e alunos, substituída por uma relação de “simetria” e de “reciprocidade”, assente na “partilha” e numa permanente “negociação” da autoridade. Mas esta reivindicação confunde autoridade com autocracia e não reconhece a dimensão de coacção que está presente em toda a experiência educativa. Se alguma coisa aprendi na minha experiência docente foi justamente isto: que é na base das tensões resultantes da desigualdade entre professor e alunos que a relação pedagógica se pode construir e tornar-se produtiva. O nivelamento da autoridade não favorece a emancipação dos alunos ou a sua autonomia: apenas os desorienta. Pelo contrário, a autonomia cria-se no confronto criativo com a autoridade. E este é um tema comum a qualquer nível ou ciclo de escolaridade. Não perceber isto é não perceber o que é ser professor. E se as exigências inerentes ao exercício da autoridade docente forem impossíveis de preencher no contexto actual, então o melhor é fecharem as escolas ou darem-lhes outro nome.

  • Caro Francisco:
    De ontem para hoje pensei muito neste seu post, e no que Daniel Oliveira publicou no Arrastão. E foi pensando neles que escrevi hoje no meu blogue. Gostaria de o convidar a visitar-me lá, e se possível a deixar um comentário.

  • Caro Mário,
    Como é visível temos que partir muita pedra a propósito de umas quantas diferenças de opinião. Felizmente temos um outro espaço onde isso será possível e onde é desejável que se faça, uma vez que a discussão presencial tem potencialidades que o debate na Net ainda não conseguiu superar.
    Não quero no entanto deixar de registar que, ao ler a tua última mensagem, encontrei nela uma linha discursiva que nenhum dos teóricos do “eduquês”, que tanto verberas, desdenharia usar.

    Um último detalhe:
    A autoridade para ser exercida com eficácia tem que ser legitimada, isto é, não basta que alguém seja investido de poder por uma “entidade” superior. É necessário que os subordinados, sobre os quais se exerce a autoridade, reconheçam a legitimidade desse exercício.
    É também por isso que o argumento das “lideranças fortes”, tão usado pelo actual governo, é tão contestado por quem acompanhe a literatura mais recente sobre organizações e lideranças.

    Um abraço e o desejo de que retornes revigorado da tua viagem.

  • Caro JL Sarmento,
    Já respondi ao desafio e aproveitei até para usar algumas das sábias palavras da sua reflexão, para melhor explicar o sentido do que penso sobre este triste tema.

  • excelente contributo!

  • [...] Sociologia escolar; [...]

  • denunciacoimbra2
    Março 22, 2008 às 8:40 pm

    Sobre o assunto:
    http://denunciacoimbra2.wordpress.com/2008/03/21/socrates-deve-estar-as-gargalhadas/

  • Caro Francisco!

    Só venho cumprimentá-lo e agradecer os seus contributos muito válidos. E olhe que da discussão nasce uma luz sempre mais forte.
    Continuo atento e interessado.
    Finalmente, consegui fazer uma ligação directa do meu blogue para o seu.
    Um abraço.

  • Não sou professor, mas sou obrigado a dizer que a professora apenas fez o que está no regulamento. Parabéns! Não é sua culpa que a aluna se tenha comportado de uma forma histérica, mal-edudaca e menina mimada, tal como os restantes colegas. A culpa é de quem educa os filhos desta forma e desta sociedade consumista em que vivemos, em que se vai trabalhar para se ter acesso a bens que não trazem felicidade.

    Cada vez que vou a Portugal pergunto-me como é possível que se ganhe tão pouco e se tenha telemóveis de terceira e quarta geração, ver os carros que circulam, ver as vivendas que vejo por todo o sul de Portugal e ver os restaurantes cheios. Ao mesmo tempo vê-se crianças e jovens sozinhos em casa enquanto os pais vão trabalhar para sustentar estes vícios. Isto para não falar da forma como vejo empregadores explorarem os seus funcionários e obrigarem-nos a trabalhar até altas horas da noite e obrigá-los a estarem cedo no trabalho no dia seguinte.

    Pobre povo que a isto se sujeita e que hipoteca os valores das gerações seguintes.

  • Bom, este foi o ‘post’ mais disparatado que já li sobre a questão … Os meus sinceros parabéns!
    Moriae

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